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Minerais Críticos: Por que o Mundo está olhando para as Terras Raras e o Nióbio do Brasil?

A nova geopolítica mineral e o protagonismo brasileiro na transição energética global.

O mundo está passando por uma das maiores transformações estruturais de sua história econômica: a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por fontes de energia limpa. Essa transição não é apenas uma questão ambiental, é uma reconfiguração das cadeias produtivas globais, dos fluxos de investimento e das relações de poder entre nações.

Junto a essa transformação, há um elemento muitas vezes invisível ao público geral: os minerais. Diferentemente das transições energéticas do passado, que dependiam principalmente de capital e engenharia, a atual é intensiva em materiais específicos, críticos e geograficamente concentrados. Sem eles, não há baterias para veículos elétricos, não há turbinas eólicas, não há semicondutores, não há inteligência artificial. Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição única no cenário geopolítico global.

A seguir, exploramos por que esses recursos são tão centrais nessa transformação e como eles moldam essa nova dinâmica.

Representação de minerais críticos: a base da transição energética e tecnológica global. Imagem: Brasil Mineral

O que são Minerais Críticos e por que são essenciais?

Minerais críticos são recursos fundamentais para setores estratégicos, como energia, tecnologia e defesa, cuja cadeia de suprimento apresenta riscos significativos, seja por escassez geológica, seja pela concentração da produção em poucos países.
Entre alguns dos exemplos mais relevantes estão o nióbio e as terras raras (ETRs). Esses materiais desempenham funções específicas e, muitas vezes, insubstituíveis em diversas aplicações:

•      Baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia em larga escala;

•      Ímãs permanentes de alta potência em turbinas eólicas e motores elétricos;

•      Semicondutores, painéis solares e componentes eletrônicos avançados;

Sistemas de defesa, aeronáutica e infraestrutura de comunicação.
Sua criticidade decorre de dois fatores principais: a importância crescente na viabilização de tecnologias de baixo carbono e a vulnerabilidade de suas cadeias produtivas, frequentemente concentradas em poucos países e sujeitas a instabilidades políticas e comerciais. Essa importância é formalizada por meio de listagens oficiais de órgãos setoriais e governamentais, como a relação de Minerais Estratégicos do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Ministério de Minas e Energia (MME) no Brasil, além da lista de Matérias-Primas Críticas da União Europeia (EU), que periodicamente revisam quais elementos são vitais para a segurança econômica e tecnológica global. Assim, mais do que insumos industriais, esses minerais tornaram-se ativos estratégicos no contexto da transição energética e da nova configuração geopolítica global.

A demanda global em aceleração

A demanda por minerais críticos tem crescido de forma expressiva, impulsionada por metas climáticas e por políticas públicas voltadas à descarbonização. Países e blocos econômicos vêm adotando estratégias para reduzir emissões de gases de efeito estufa, o que implica uma expansão significativa do uso de tecnologias intensivas nesses recursos.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), em um cenário de descarbonização alinhado ao Acordo de Paris, a demanda por minerais críticos pode crescer entre 4 e 6 vezes até 2040, dependendo do mineral.

Esse movimento ocorre em paralelo a uma preocupação crescente com a segurança das cadeias de suprimentos. A forte dependência de poucos fornecedores, especialmente no caso das terras raras, com a China dominando mais de 60% da produção global, expõe economias a riscos geopolíticos e comerciais significativos.

Como resposta, Estados Unidos e União Europeia têm buscado diversificar suas fontes de fornecimento, incentivar a produção doméstica e firmar parcerias com países que possuam recursos minerais relevantes e ambiente institucional estável. É nesse contexto que o interesse internacional pelo Brasil se intensifica.

Minerais Críticos vs. Minerais Estratégicos: o caso brasileiro

Embora frequentemente utilizados como sinônimos, os conceitos de minerais críticos e minerais estratégicos não são idênticos e merecem distinção:

•      Minerais Críticos são definidos a partir de uma perspectiva global, considerando sua importância econômica para a transição energética e os riscos associados ao fornecimento. São críticos para o mundo.

•      Minerais Estratégicos são aqueles que um país considera essenciais para seus interesses nacionais, levando em conta desenvolvimento industrial, segurança econômica e posicionamento geopolítico. São estratégicos para quem os detém.

 

No caso brasileiro, terras raras e nióbio ocupam ambas as categorias simultaneamente. São críticos no cenário internacional, o mundo precisa deles para viabilizar a transição energética e a revolução tecnológica em curso. E podem, mediante planejamento adequado e políticas consistentes, tornar-se pilares de uma estratégia nacional de desenvolvimento industrial de nova geração.

O olhar do mundo sobre o Brasil hoje não busca apenas commodities. Busca a segurança necessária para construir o futuro da tecnologia e da energia em um cenário de crescente instabilidade nas cadeias de suprimento globais.

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Minerais de Elementos Terras Raras. Imagem: Elaborado pelo autor.

Elementos de Terras Raras (ETRs): a inteligência da nova economia

Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos, incluindo Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr), Disprósio (Dy) e Térbio (Tb), com propriedades magnéticas, luminescentes e catalíticas únicas, fundamentais para uma ampla gama de tecnologias de alta performance.

Aplicações estratégicas

 

•      Mobilidade elétrica: Um único motor de veículo elétrico pode conter até 2 kg de ímãs permanentes de terras raras (NdFeB). Com a projeção de centenas de milhões de veículos elétricos nas próximas décadas, a demanda por esses elementos deve crescer exponencialmente.

•      Energia eólica: Turbinas de grande porte com gerador de ímã permanente utilizam entre 200 kg e 2 t de terras raras por unidade, dependendo da capacidade instalada.

•      Semicondutores e Chips de Alta Performance: As Terras Raras são essenciais na fabricação de capacitores cerâmicos e componentes de circuitos integrados que reduzem a perda de energia e o calor gerado durante o processamento de grandes volumes de dados.

•      Defesa e aeroespacial: Radares, sistemas de guiagem, comunicações militares e equipamentos de visão noturna dependem diretamente de ETRs.

Para entender em maior profundidade o que são as Terras Raras, suas características e aplicações, confira o conteúdo completo sobre ETRs também no nosso site.

Imagem ilustrativa de Terras Raras. Imagem: NeoFeed.

O Brasil no mapa das Terras Raras

O Brasil ocupa posição de destaque global em terras raras. Segundo o USGS, o país detém aproximadamente 21 a 22 Mt de reservas de óxidos de terras raras (REO), posicionando-se como o segundo maior detentor de reservas globais, atrás apenas da China. A Agência Nacional de Mineração (ANM) reportou 11,4 Mt de reservas provadas e prováveis, mantendo o Brasil em segundo lugar no ranking global do USGS para 2025.

Atualmente, o país conta com apenas uma mina em operação, o Projeto Serra Verde (Pela Ema, GO), operado pela Serra Verde Pesquisa e Mineração, mas possui dezenas de depósitos em fase de exploração, incluindo os projetos Caldeira (da Meteoric Resources) e Colossus (da Viridis Mining and Minerals), ambos localizados no planalto de Poços de Caldas (MG), e o Projeto Carina (da Aclara Resources) em Goiás.

O principal desafio do Brasil nas Terras Raras não está na extração, mas no processamento químico de separação dos elementos, uma etapa complexa e de alto valor agregado, ainda dominada pela China. Superar essa barreira tecnológica é condição essencial para o país capturar valor real nessa cadeia.

Elemento Nióbio na tabela periódica. Imagem: Canva.

Nióbio: O caso de sucesso do Brasil no mercado global

O Brasil ocupa uma posição dominante no mercado global de nióbio. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do US Geological Survey (USGS), o país responde por aproximadamente 90% da produção mundial e concentra cerca de 94% das reservas conhecidas do metal, consolidando-se como o principal fornecedor global de nióbio.

As aplicações do nióbio são vastas e estratégicas, fundamentadas em sua capacidade única de conferir resistência e leveza a ligas metálicas. Elas estão presentes nos setores de siderurgia, indústria aeroespacial, saúde e energia.

Dentre diversas aplicações, na siderurgia, a adição de pequenas quantidades deste metal (ferronióbio) transforma o aço comum em Ligas de Alta Resistência e Baixa Liga (HSLA), essenciais para a construção de pontes, viadutos e gasodutos que suportam condições extremas. A indústria aeroespacial utiliza o nióbio em superligas de grau vácuo para componentes de turbinas de aviões e bocais de foguetes, devido ao seu altíssimo ponto de fusão e resistência térmica. Recentemente, o óxido de nióbio também tem revolucionado o mercado de baterias, permitindo recargas ultrarrápidas em menos de 10 minutos e aumentando a vida útil e a segurança de veículos elétricos.

Os principais polos produtores

A produção brasileira está concentrada em dois grandes distritos minerais:

•      Araxá (MG) - CBMM: É a principal operação e o pilar do suprimento mundial. A mina de Araxá possui reservas estimadas em 395,6 Mt de minério a um teor médio de 1,49% Nb, sendo a maior operação de nióbio do planeta.

•      Catalão (GO) - CMOC Brasil: Em 2024, a empresa reportou produção recorde de 10.024 t de nióbio, consolidando-se como o segundo maior produtor mundial e respondendo por cerca de 11% do output global.

Em 2023, o Brasil produziu 105.821 t de nióbio contido, liderado por Minas Gerais com 90.372 t (85%) e Goiás com 15.449 t (15%), segundo o SGB.

Nióbio. Imagem: Getty Images

A geopolítica do nióbio

A posição dominante brasileira sobre o nióbio não passou despercebida pelas potências globais. Em 2010, documentos diplomáticos americanos divulgados pelo WikiLeaks revelaram que o Departamento de Estado dos EUA tratava o acesso ao nióbio brasileiro como um tema estratégico para a segurança nacional do país, mesmo em um contexto de pleno fornecimento e sem qualquer ameaça de ruptura.

A percepção internacional sobre o valor estratégico do mineral logo se traduziu em movimentos concretos de mercado. Em 2011, um consórcio de empresas chinesas, japonesas e sul-coreanas adquiriu 30% do capital da CBMM, maior produtora mundial de nióbio, sediada em Araxá (MG), por US$4 bilhões. A transação evidenciou que o interesse não era puramente comercial: tratava-se de garantir acesso seguro a um recurso sem substitutos viáveis em diversas aplicações industriais de alta performance.

A CBMM, contudo, manteve o controle operacional da empresa e não cedeu seu processo proprietário de beneficiamento, um sigilo industrial composto por quinze etapas desenvolvidas internamente. Esse domínio tecnológico é o que diferencia o Brasil de simples exportadores de minério: o país exporta nióbio processado, capturando valor agregado ao longo da cadeia produtiva.

Esse modelo, reservas abundantes combinadas com domínio tecnológico do processamento, é precisamente o que o Brasil precisa replicar no segmento das Terras Raras para consolidar seu protagonismo na economia mineral atual.

Oportunidades e desafios estruturais para o Brasil

O Brasil está diante de uma janela histórica de oportunidade. A demanda internacional por seus minerais tende a crescer de forma consistente nas próximas décadas, criando espaço para expansão de exportações, atração de investimentos e desenvolvimento de novas cadeias produtivas. No entanto, esse potencial vem acompanhado de desafios estruturais que precisam ser enfrentados:

Verticalização e agregação de valor

O risco central é o Brasil permanecer como exportador de matéria-prima, sem capturar valor nas etapas industriais subsequentes. O modelo da CBMM no nióbio, que detém o domínio tecnológico do processamento, deve servir de referência para as Terras Raras. Políticas industriais que incentivem a separação e o refino doméstico de ETRs são determinantes para uma inserção qualificada nas cadeias globais.

Infraestrutura e logística

A expansão da produção mineral para regiões como Pará e Rondônia exige investimentos substanciais em infraestrutura de transporte e energia. Sem essa base logística, o potencial geológico não se traduz em capacidade produtiva competitiva nem em retorno econômico para as regiões produtoras.

Sustentabilidade e padrões ESG

A mineração desses recursos precisa estar alinhada aos padrões ambientais, sociais e de governança (ESG). Mercados como o europeu e o norte-americano estão adotando critérios cada vez mais rigorosos de due diligence sobre as cadeias de suprimento mineral. O acesso a esses mercados dependerá diretamente da capacidade do Brasil de demonstrar práticas responsáveis e rastreáveis.

Ambiente regulatório

A agilidade e a previsibilidade do ambiente regulatório para licenciamento e concessão de lavra são fatores críticos para a atração de investimentos de longo prazo. Avanços nessa dimensão são essenciais para que o país capitalize sua vantagem geológica de forma sustentável e competitiva.

Brasil no Centro: Riqueza Geológica, Responsabilidade Estratégica

O crescente interesse global por minerais críticos é resultado direto das transformações tecnológicas em curso.

Nióbio e terras raras passaram a ocupar uma posição estratégica no contexto da transição energética e da busca global por segurança no fornecimento de minerais críticos.

 

O Brasil possui vantagens comparativas únicas: o domínio das reservas e da produção de nióbio global, reservas de terras raras de classe mundial e uma trajetória comprovada de capacidade tecnológica em mineração. Transformar essas vantagens em protagonismo efetivo, porém, exigirá muito mais do que riqueza geológica, exigirá industrialização, governança, infraestrutura e visão estratégica de longo prazo.

A janela de oportunidade está aberta. O que determinará se o Brasil se posiciona como fornecedor de commodities ou como ator central na economia mineral do século atual é, fundamentalmente, uma escolha de política industrial e de desenvolvimento nacional.

 

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Referências

Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO. Anuário Mineral Brasileiro 2023: ano base 2022. Brasília, DF: ANM, 2023.

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BRASIL MINERAL. CMOC bate recorde de produção no Brasil em 2024. [S. l.], 2024. Disponível em: https://www.brasilmineral.com.br/noticias/cmoc-bate-recorde-de-producao-no-brasil-em-2024. Acesso em: 28 abr. 2026.

CBMM. Relatórios institucionais e informações públicas 2023–2024. Araxá: CBMM, 2024.

CMOC BRASIL. Relatório de Produção 2024. Catalão/Ouvidor: CMOC, 2024.

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U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral Commodity Summaries 2024. Reston, VA: USGS, 2024.

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